Delírios Radioativos

"Um mundo perdido no meu cérebro. Um sério deslize alucinógeno. Umas ruins pretensões poéticas e um coração pulsante e gritador. "

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.

Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

Hilda Hilst, Cantares do Sem Nome e de Partidas (via penejar)

Tomas dizia consigo mesmo: deitar-se com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não apenas diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma multidão inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (esse desejo diz respeito a uma só mulher).

in A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera.

"Escrevo ao pôr-do-sol, creio que por falha do juízo.
Nem me interessaria a lucidez, se deste modo posso pôr-me a conversar com tal grandiosidade da natureza. Ou desintegrar-me nos multicores deste fenômeno. Num minuto, estou mergulhada tão profundo no alaranjado que meu próprio corpo se veste de outono, de entardecer. Num delírio cortejo os faunos esculpidos nas nuvens, seguindo a trilha do Sol, o horizonte interpondo-se entre nós e ele.
Quem me dera a loucura completa, de prender-me para sempre e mais uns dias num qual sono deste. 
Diz-se, embora eu saiba quem, que já tropecei na vala e a superfície está demasiado distante para que retorne. Diz-se que o mundo já não me tem a ver.
Está certo. A vida vigente decretou a sentença. Não há corrida de fuga. Há desespero de morte, prevalência em desinteresse.
Escrevo, escrevo, escrevo ao pôr-do-sol. Tantas cartas que acredito que não poderá deixar de respondê-las, ao menos uma. Escrevo ao pôr-do-sol, que algumas vezes me segreda as mais fascinantes constatações. Vejo-o descer e falar-me com ternura e atenção.
Por isso escrevo.
Ou enlouqueço.”

– Sobre devaneios e desabafos, Delírios Radioativos.

Amar o perdido…

Amar o perdido…

Fria madrugada

"É madrugada.
A noite se estende pensamento afora,
sublimada.
É madrugada
e eu já não sei:
se me remoo
de saudade

se suspiro o cru desfecho
ou sequer se
era verdade.
É madrugada…
eu encontrei as tuas iniciais na minha agenda
como quem deixa
uma pista, 
conta uma lenda.
A madrugada…
Ah, a madrugada me revira pelo avesso
me dispersa e me ajunta.
eu com a alma espremida, e ela pergunta:
"Que há aí?"
Daqui escorre tudo…
do pouco
que restou”

Delírios Radioativos.

"Eu meio quete amo por inteiroteu jeito… cheiroteus víciose a pequena parteque é você todoEu te amo mais ou menos muito mesmoaos poucoseu te amo de uma vez sóEu te amo um poucodemaisÀs vezeseu te amo semprecom tudo de mime nada mais.”— in Poemas e Amores Perdidos, Delírios Radioativos.

"Eu meio que
te amo por inteiro
teu jeito… cheiro
teus vícios
e a pequena parte
que é você todo
Eu te amo mais ou menos 
muito mesmo
aos poucos
eu te amo de uma vez só
Eu te amo um pouco
demais
Às vezes
eu te amo sempre
com tudo de mim
e nada mais.”

— in Poemas e Amores PerdidosDelírios Radioativos.

docismo:

Quando flor judiada: sol não nasce;
Quando noite sem estrelas: tempo que não muda;
Quando cair de chuva: verão que nunca vem.

dm.

poeticasvisuais:

Fluorescent Black Light Bodyscape Photography by John Poppleton

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