Delírios Radioativos

"Um mundo perdido no meu cérebro. Um sério deslize alucinógeno. Umas ruins pretensões poéticas e um coração pulsante e gritador. "

Sou manhã de inverno
desboto dos teus olhos escuros
lâminas úmidas de dor.

Nas flores desenho versos
sou orvalho de poucas letras
reticências fúteis cristalinas
minhas estrelas de tom azul

Eu brilho solta no ar.

Na terra me rendo prata
de joelho saboreio tua pele
absorvo amargo o abraço
faço fotossíntese de amor

Eu brilho solta no ar.

E a noite nos encobre
dispo-me inteira danço nua
sou tua lua desfigurada
transito na tua mente barata

Sou um ciclo que te completa
e sem querer gentilmente eu fico
(mais uma vez)
amanheço no teu céu azul-marinho.

Não vou embora, vou te esperar.

Elisa Bartlett. (via oxigenio-dapalavra)

Na esquina curva deste pescoço
passou meu pulso acelerado
por onde correram os teus beijos
E derraparam quando 
se derramaram
seus lábios
em mim

Na esquina curva deste pescoço
passou meu pulso acelerado
por onde correram os teus beijos
E derraparam quando
se derramaram
seus lábios
em mim

Licença. Licença poética eu não tenho. Licença, nem para dirigir. Dirigir tua mente nas plebeias ruas pardas. Licença para dizer que sou um péssimo escritor e, não nego, admiti o fracasso de minhas obras de arte. Poesia feita, poesia dada, poesia lascada no tempo de pedras polidas. Pois, com sua licença, quero dizer com sinceridade que pouco sei sobre o que escrevo. Sem falar nos sonhos que a gente tem de seguir, mesmo sem licença, por aí a fora. Licença. As pessoas não tem mais educação.

A.E.C Souza  (via desnorteios)

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.

Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

Hilda Hilst, Cantares do Sem Nome e de Partidas (via penejar)

Tomas dizia consigo mesmo: deitar-se com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não apenas diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma multidão inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (esse desejo diz respeito a uma só mulher).

in A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera.

"Escrevo ao pôr-do-sol, creio que por falha do juízo.
Nem me interessaria a lucidez, se deste modo posso pôr-me a conversar com tal grandiosidade da natureza. Ou desintegrar-me nos multicores deste fenômeno. Num minuto, estou mergulhada tão profundo no alaranjado que meu próprio corpo se veste de outono, de entardecer. Num delírio cortejo os faunos esculpidos nas nuvens, seguindo a trilha do Sol, o horizonte interpondo-se entre nós e ele.
Quem me dera a loucura completa, de prender-me para sempre e mais uns dias num qual sono deste. 
Diz-se, embora eu saiba quem, que já tropecei na vala e a superfície está demasiado distante para que retorne. Diz-se que o mundo já não me tem a ver.
Está certo. A vida vigente decretou a sentença. Não há corrida de fuga. Há desespero de morte, prevalência em desinteresse.
Escrevo, escrevo, escrevo ao pôr-do-sol. Tantas cartas que acredito que não poderá deixar de respondê-las, ao menos uma. Escrevo ao pôr-do-sol, que algumas vezes me segreda as mais fascinantes constatações. Vejo-o descer e falar-me com ternura e atenção.
Por isso escrevo.
Ou enlouqueço.”

– Sobre devaneios e desabafos, Delírios Radioativos.

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